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Coluna do DrPuppet #2: Oportunidades e problemas do êxodo europeu

Quem acompanhou o cenário competitivo de League of Legends deve ter ouvido o termo "korean exodus" (ou êxodo coreano, em português) no início deste ano, usado para os sul-coreanos que foram para a LPL, a liga da China.

No início da temporada, os times chineses compraram vários jogadores muito bons, todos das duas Samsungs de 2014, por exemplo, uma delas, inclusive, campeã mundial daquele ano. Eles decidiram seguir os números insanos que a China ofereceu, menos um menino, conhecido pelo apelido de Faker.

Mas o que aconteceu após o "korean exodus"?

Quando foram anunciados os jogadores que iriam para a China jogar na LPL, os analistas se perguntaram o que aconteceria com a Coreia do Sul, já que vários dos melhores jogadores da Coreia, praticamente todos, saíram. Pensaram que a China seria a melhor região para este ano.

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Coreano Samsung White perdeu jogadores para o cenário da China (Foto: Riot Games)

Tudo começou como o previsto, com o EDG vencendo a LPL e o Mid-Season Invitational (MSI) contra o sul-coreano SK Telecom T1. Tudo parecia provar que o êxodo coreano havia valido a pena. Para o Campeonato Mundial, EDG e LGD Gaming eram considerados favoritos ao título.

Mas ninguém contou com um ponto que ia se tornar um problema grande: comunicação. O "korean exodus" pode ter levado os melhores cyber-atletas da Coreia para a China, porque foram feitas ofertas insanas, mas o puro talento não iguala a qualidade de uma equipe coordenada perfeitamente.

Como coreanos e chineses não falam inglês tão bem, a comunicação entre os jogadores das equipes ficam bem no báscio. É preciso usar pings e calls fáceis com os termos do jogo. Isso se torna problemático quando você joga em alto nível. O que faz a diferença entre os times bons e os melhores do mundo são as estratégias e o jogo de mapa complexo. Comunicação básica com pings simplesmente não é o suficiente.

O que isso tem em comum com o "european exodus"?

Quem está acompanhando a pré-temporada deve ter visto o Svenskeren e o Kasing entrando para o TSM e o Huni e Reignover saindo da fnatic, com interesse de competir na LCS North America. O motivo é bem claro: dinheiro.

O cenário europeu sempre foi conhecido por ter muitos jogadores talentosos, com histórico de sempre revelar novas promessas. Só que a exposição e os patrocínios não se comparam com o de regiões como América do Norte, Coreia do Sul e China.

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Huni e Reignover deixaram o campeão da Europa para jogar na LCS NA (Foto: Riot Games)

A Europa não tem os mesmos números para conseguir manter os jogadores. Outro dia saiu até um VoD da stream do Rekkles, em que ele falou um pouco sobre a saída de Huni e Reignover. O AD Carry disse que "não é segredo que o cenário europeu não tem o mesmo dinheiro que os cenários norte-americano, coreano e chinês. Coreia e América do Norte pagam, em média, 2,5 vezes a mais do que o salário europeu. Até os times do Challenger Series da América do Norte pagam mais do que os times europeus".

Ouvir isso de um jogador profissional é preocupante para o cenário europeu. Ou seja, é provável que bons cyber-atletas saiam da Europa para competir no cenário americano, porque as ofertas serão tão boas que será difícil não aceitá-las.

Por que a Europa não compete em valores com outras regiões?

A Europa sofre com grande déficit de investimento e patrocínios. Mesmo tendo algumas organizações grandes e jogadores bem famosos, a Europa não consegue patrocínios e o mesmo alcance que certas organizações de fora.

Um dos motivos de a Europa não ter a mesma abrangência é a audiência. O público europeu é mais velho do que os concorrentes norte-americanos. De acordo com rankings, a Alemanha é o segundo país mais velho do mundo, em termos das idades dos habitantes, só perdendo para o Japão.

Não só isso. O europeu é muito conservador e não se empolga tão fácil com uma tendência nova, que é o esporte eletrônico.

Outro problema são as línguas diferentes. Como a Europa é grande e tem vários países, com línguas e culturas diferentes, pode ser fácil atingir certo público, mas difícil atingir outro. É complicado agradar a todos igualmente.

Assim, há muitas organizações menores, locais, simplesmente focadas nos cenários nacionais deles. Isso nos leva ao próximo problema, que é a presença online das organizações.

O que é bem importante para patrocínios é o número de alcance que você tem. Ou seja, se a organização tem foco nacional, o alcance diminui, e é mais difícil conseguir patrocinadores.

Todos esses fatores tornam a parte financeira um pouco carente e dificultam o crescimento do cenário europeu.

Qual é a importância desse movimento?

O cenário europeu será forçado a criar novos talentos mais uma vez, já que jogadores bons provavelmente trocarão de cenário por conta dos salários. Basicamente, a Europa estará na mesma situação que a Coreia esteve neste ano. Eles tiveram que investir muito em criar novos talentos. Os dois exemplos são os dois finalistas do Mundial 2015: SK Telecom T1 e KOO Tigers.

Se você olhar essas equipes, tirando Faker e MaRin, verá jogadores que não eram vistos como bons pelos coreanos. Para quem não sabe, MaRin, Easyhoon, Bang e Wolf vieram do segundo time do SKT, que não era considerado um time bom. O único sucesso deles havia sido o top4 na OGN Summer 2014. E eles viraram campeões mundiais.

Já o KOO foi montado com cyber-atletas que eram considerados "washed up", ou seja, que já haviam passado por suas melhores fases.

Como esses dois times conseguiram chegar à final do Mundial? Já que todos falam coreano, não houve problemas de comunicação. Mas o que faz a diferença para as outras regiões é a equipe técnica. E isso pode ser preocupante para a Europa neste momento.

Todos as regiões têm vários jogadores bons, talentosos e sempre virão novos. Mas a Coreia do Sul sabe como lapidar esses talentos. A Europa tem muitas promessas, mas falta treinamento.

Resumindo, isso tudo mostra a carência das equipes técnicas fora da Coreia. A América do Norte está dando os primeiros passos em assumir dois coaches, mas procurando técnicos que vêm de fora do jogo para se profissionalizar neste área. As coisas têm que começar desde cedo, já com amadores.

É assim que uma região cresce e consegue criar novos talentos constantemente.

A situação financeira da Europa não irá mudar de um dia para o outro. Deve-se investir no futuro, com estrutura e equipe técnica, para desenvolver talento constantemente.

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* Alexandre "DrPuppet" Weber é analista e auxiliar técnico da equipe de League of Legends Last Kings, do Chile. Ele é nascido no Brasil, mas mora na Alemanha desde os 9 anos. Treinou o Kaos Latin Gamers (KLG) e levou a equipe à decisão do International Wildcard nesta temporada. É colunista do MyCNB desde novembro de 2015. Escreve sobre League of Legends europeu e latino-americano nos dias 15 e 30 de todo mês.
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