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Coluna do Rafael Pereira #4: Em busca do segredo do sucesso coreano

É consenso que os esportes eletrônicos são muito mais valorizados na Coreia do Sul, onde há federação, canal na televisão para transmissão dos campeonatos e investimentos de vários tipos. Além disso, os sul-coreanos são os principais campeões em modalidades como League of Legends e StarCraft II.

Mas o que os diferencia tanto? Por que é tão difícil vencer os coreanos nos games? Será algo cultural ou natural deles? Eles são treinados para isso ou simplesmente nascem melhores?

Quando criei o projeto de pesquisa em Psicologia no e-sport na Universidade Federal de Santa Catarina, um dos objetivos era ajudar os jogadores brasileiros a evoluir e poder melhorar a níveis coreanos (ou até superá-los um dia). Para isso, começamos a verificar o que os ajudava a se desenvolver positivamente e anotamos os resultados, produzindo um artigo científico. Esse artigo foi aprovado em uma conferência sobre Psicologia, Educação e Sociedade realizada em Seul, capital da Coreia.

Com esse artigo aprovado e com todas aquelas perguntas na cabeça, vim para Seul, para dividir parte do que construímos até agora e tentar descobrir o que tanto muda na rotina coreana que faz com que sejam os melhores do mundo. Para isso, irei me encontrar com diretores de alguns times sul-coreanos e responsáveis por federações nacionais e internacionais de e-sports.

Por mais que existam indícios de que a escrita asiática (tanto a coreana, como a chinesa e a japonesa) possam ser ferramentas que influenciem no desenvolvimento cerebral do indivíduo, já que ela trabalha tanto nosso lado artístico quanto o exato, minha hipótese é de que o desenvolvimento está muito mais relacionado à questão cultural.

O e-sport é levado como um trabalho de verdade, que exige tanta dedicação quanto em qualquer outra profissão. E os coreanos trabalham muito, pois o trabalho é um dos pontos que mais podem trazer honra para a vida e a família na Coreia do Sul.

Terei duas semanas para apresentar o artigo na conferência e ir atrás de informações para descobrir como eles fazem para ser os melhores, buscando entender o contexto da vida deles e do que isso difere em relação à nossa.

Primeiro dia

No meu primeiro dia em Seul, aproveitei para conhecer um pouco mais da cultura em geral e, principalmente, observar como é o dia a dia deles. A primeira coisa que se pode dizer é: eles trabalham, e muito. O coreano recebe para trabalhar, em média, 40 horas semanais, a mesma carga horária no Brasil. A diferença é que eles fazem muita hora-extra, cerca de três horas a mais praticamente todos os dias. A vida deles é o trabalho, é essa a razão do viver. Esse já é um ponto importante para se pensar, pois a dedicação para algo que se deseja é extrema por aqui.

Observei também que é fácil ir a qualquer lugar e que a cidade não para. Eu cheguei ao hotel quase 1 hora da manhã. Até tomar banho, organizar as roupas e tudo mais, eu terminei quase 3 horas da madrugada. Precisava jantar. Tinha um restaurante aberto na frente do hotel e várias barraquinhas na rua. Tudo ainda funcionando perfeitamente, e ninguém olhava com cara feia, mandando você embora porque queria fechar. Comi algo aleatório, porque os donos não falavam inglês, então só apontei no cardápio, que nem imagem tinha, e comi uma carne ensopada, meio adocicada, meio apimentada. Nem sei se comi do jeito certo, mas estava muito gostoso. Aliás, já percebi que aqui tudo é doce, apimentado ou os dois ao mesmo tempo.

É interessante também como as pessoas são prestativas. Elas podem não entender o que estou falando, ou até entendem e não sabem como responder em inglês, mas fazem de tudo para tentar ajudar, nem que seja por desenho, mímica ou qualquer outra coisa.

Se você estiver com dificuldade em algo e o cidadão coreano perceber, a primeira reação é ver se você precisa de ajuda. Compartilhar é outro hábito sul-coreano. Quando você, sozinho, pede uma bebida, o garçom traz um copo a mais. Me explicaram que é porque, aqui, se compartilha tudo: bebida, comida, doce, qualquer coisa, o costume é compartilhar. Ah, a água nos restaurantes é de graça.

Bom, se minha hipótese está certa ou não, ainda vou descobrir, pois acabei de chegar e tem muito chão pela frente. Mas espero que isso possa ajudar a levar muito mais conhecimento para nosso cenário e deixá-lo mais competitivo, nos dando maior oportunidade de sermos vistos mundialmente e, com isso, regularizar também o e-sport no Brasil, algo tão importante hoje para dar maior segurança para jogadores e times brasileiros.

Na próxima coluna contarei o resultado de minha viagem pela Coreia do Sul. Fiquem ligados!

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* Rafael Pereira é graduando de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e criador de projeto de intervenções e pesquisa voltados para os esportes eletrônicos. É consultor em psicologia da equipe de League of Legends do CNB e-Sports Club. É colunista do MyCNB desde novembro de 2015. Escreve sobre psicologia nos dias 5 e 20 de todo mês.
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