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Coluna do Rafael Pereira #5: conclusões da viagem à Coreia do Sul

Na primeira semana na Coreia, participei de uma conferência em psicologia, educação e sociedade. Fui apresentar um artigo que escrevi falando sobre os resultados e a importância da psicologia do esporte ser utilizada no âmbito do e-sport. Quais os benefícios, tanto para a saúde mental do jogador como para a melhora de desempenho dele.

Fico feliz em dizer que correu tudo bem no evento. Os participantes gostaram, os mais velhos diziam ser interessante e que estavam ligando para os filhos/netos para contar sobre isso, mas, como havia muitos jovens na conferência, eles conseguiram se identificar bastante com o assunto. Além disso, a conferência serviu para me trazer uma carga muito grande de compreensão sobre a cultura e a sociedade asiática em geral, e o que a difere em pontos psicológicos da sociedade ocidental. 

Bom, após a conferência, eu ainda fiquei mais uma semana, pois tinha uma pergunta a ser respondida: qual o segredo coreano? Por que eles são os melhores do mundo dentro de alguns jogos como League of Legends e StarCraft?

Para tentar responder a essas questões, eu me encontrei com personalidades internacionais na área de e-sports enquanto estive na Coreia, desde jogadores, treinadores e comentaristas até repórteres e direção das federações coreana e internacional. Falei com o caster MonteCristo, a repórter Susie Kim, jogadores e o treinador da ROX Tigers, entre vários outros.


Rafael em selfie com Hojin, Jungler do Tigers no Mundial de 2015 (Foto: Arquivo Pessoal)

A primeira das respostas que obtive foi: obediência. Na cultura sul-coreana, as pessoas aprendem que devem um respeito muito grande pelas mais velhas ou pelas que têm hierarquia maior. Se um treinador disser que o jogador tem que ir dormir, o jogador vai levantar e ir dormir. Se ele diz que tem que acordar, o jogador levanta. E assim por diante. Não tem chororô. Não tem reclamação. O treinador é superior, e o jogador vai obedecer.

Isso ocorre principalmente porque essa obediência já está enraizada na cultura, pois lá, se um professor disser que um aluno tem de fazer alguma coisa, o aluno vai fazer. Isto existe porque acredita-se que a pessoa mais velha ou que alcançou um patamar maior na hierarquia adquiriu mais experiência e conhecimento. Se ela foi escolhida para liderar um grupo, não está lá à toa.

Mas, obediência e respeito vêm por outro motivo: coletividade! O pensamento asiático é coletivo, o contrário do nosso pensamento ocidental, que é individualista. Vou explicar melhor: enquanto aqui no Ocidente um jogador, ao ser questionado sobre o que busca ser ou qual o objetivo dele, normalmente a resposta é: ser o "melhor Mid Laner/Solo Top/Jungler/Support/AD Carry" ou "melhor jogador".

Ele quer ser reconhecido pelo que faz, quer ser o diferencial no time dele. Já na Ásia, principalmente na Coreia, o pensamento é pelo grupo. Não quero "eu" ser o destaque, mas quero que meu time seja o destaque. Quero que meu time seja o melhor do mundo! O sentimento do grupo, do coletivo, ultrapassa o individual. E isso muitas vezes pode não ser tão bom, pois lá o que se faz pelo grupo pode até anular a individualidade.

Não importa o que você quer, o que te difere dos outros, o que importa é se você faz seu máximo para o grupo conseguir avançar, caso você não faça, então tchau. Isso não se limita aos jogadores, é uma cobrança que vem em todos os níveis: jogadores, treinadores, treinador-chefe, gerentes de times, diretores e assim vai. Sempre o maior cobrando aquele que está abaixo, pelo melhor do time.


Rafael se encontrou com narradores Montecristo e DoA na Coreia (Foto: Arquivo Pessoal)

Em uma das conversas com os treinadores coreanos, surgiu outro fator, que ele denominou: desespero. Sim, isso mesmo, desespero. Para a cultura coreana, o tempo todo você tem de estar fazendo o seu melhor pela sociedade, e isso vem em todas as categorias sociais, desde o trabalho, até pensar em se você está saindo bonito o suficiente de casa, pois sair mal arrumado é levar ao seu grupo um desconforto.

Então, é esperado que, ao terminarem o Ensino Médio, os adolescentes entrem em uma boa faculdade e tenham um emprego digno, bem reconhecido. Quem entra para o mundo do e-sport deixa de lado a universidade e, por isso, tem uma obrigação social de se mostrar o melhor. Isso porque, se a pessoa não está produzindo algo à sociedade, tem que ser compensado fazendo dela a melhor do mundo. O jogador sacrifica tudo para poder estar lá. Se perde aquela oportunidade, perde tudo que o representa na sociedade.

É conhecido que a Coreia tem uma das mais altas taxas de suicídio do mundo, principalmente entre adolescentes/jovens. Isso está muito mais relacionado a esse fator, de como eles sentem na sociedade, além de questões de como eles percebem a morte, pela religião confucionista, do que ao excesso de trabalho deles, já que muitas vezes, é esse trabalho que se torna um fator de significação para vida deles. É comum que um coreano trabalhe mais do que as horas diárias que foi contratado, e muitas vezes nem tire férias. Ele é o trabalho dele. Quando perdem isso, perdem também o significado da vida.


Com melhores do mundo, Coreia é referência em esportes eletrônicos (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas nem só de trabalho e pressão vive a Coreia. Lá é um lugar que tem muitas coisas positivas também. Além de uma beleza exuberante, um povo que vive o moderno e o antigo em harmonia, também é uma sociedade preocupada em manter educação, saúde e acesso aos seus moradores. Por exemplo, todos usam metrô. Porque funciona! As pessoas são extremamente prestativas. E a segurança é impecável. Você pode mexer com dinheiro ou usar o celular em qualquer beco perdido e escuro. Porque nada vai acontecer. E claro: a internet! Linda, rápida, barata e em todos os lugares.

Ainda há muito mais para se entender e precisaria de muito mais tempo que 15 dias. Porém, esse é o primeiro passo, inclusive para entendermos as diferenças e aprendermos o que fazer aqui e e o que evitar. 

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* Rafael Pereira é graduando de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e criador de projeto de intervenções e pesquisa voltados para os esportes eletrônicos. É consultor em psicologia da equipe de League of Legends do CNB e-Sports Club. É colunista do MyCNB desde novembro de 2015. Escreve sobre psicologia nos dias 5 e 20 de todo mês.
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Tags: coluna do rafael pereira, colunista15