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Coluna do Rafael Pereira #9: trabalhar com e-sports requer profissionalismo

Hoje, a coluna vai ser mais uma opinião minha sobre profissionalismo nos e-sports. Quero deixar claro que é uma percepção que construí nesses quase dois anos trabalhando diretamente no cenário competitivo, conhecendo diferentes times e atletas, desde as equipes principais até as que disputam o Circuito Desafiante.

Quando será que vamos nos profissionalizar mesmo? Quando vamos abrir mão de atitudes amadoras para levar a sério o que estamos construindo?

Atualmente, vejo vários times, principalmente os dirigentes, que fazem parte da primeira divisão de League of Legends, se esforçando em transformar a realidade do e-sport para colocar profissionalismo e seriedade. Quanto mais cedo trouxermos o pensamento de que isso é um trabalho esportivo, que exige tanto quanto qualquer outro esporte dito tradicional, mais rápido conseguiremos conquistar direitos. Mas embora haja todo esse movimento, é muito difícil achar pessoal que entenda e aplique isso de verdade.

Quantas pessoas você já encontrou em momentos casuais que disseram: "eu gostaria de ser jogador profissional, passar o dia jogando e ainda ganhar para isso". Desculpa, amigo, mas, se você pensa isso, não quer ser um profissional, quer ser só um cara que ganha para brincar. Ser profissional demanda seriedade, disciplina, entendimento de obrigações e, no mundo esportivo, essas obrigações vão muito além do horário de treino comum. Não basta fazer só o que acha que é bom, só o que quer, só "jogar" e esperar com isso, ser chamado de profissional.

Isso não acontece só entre jogadores, não. É tão difícil quanto, se não mais difícil ainda, encontrar pessoas para compor uma equipe técnica séria e preparada. Treinadores, analistas e life coaches são pessoas que estão lá com um papel e uma tarefa bem definidos: melhorar o desempenho dos jogadores a ponto de torná-los e mantê-los campeões. Por isso, a cobrança em cima deles é, e deve mesmo ser, muito maior do que existe sobre os jogadores. Ora, eles estão lá para ser o exemplo, para ser a referência, o ponto de segurança. Para isso, a pessoa tem de estar muito bem resolvida e não pode misturar questões pessoais com as questões do jogador. Ele está aí para ser um parceiro, um colaborador, uma pessoa de confiança, mas não é o pai, nem o irmão, nem ninguém da família. Pode parecer estranho falar isso, pois parece ser um discurso bem usado hoje em dia, mas manter um ótimo ambiente de treino, trabalho e convivência não significa misturar coisas pessoais com profissionais, ao contrário, significa saber separar e lidar com essas situações.

Há pouco tempo eu procurei um filme, que queria assistir de novo, pois me ajudava na minha inspiração: Coach Carter. Muitos de vocês devem ter visto já. Se não viram, indico que vejam. Ao mesmo ponto que o treinador no filme entendia e sabia dos problemas de cada jogador, ainda mantinha sua imparcialidade. Se algum deles precisasse, ele seria o ponto de segurança, mas em nenhum momento misturaria suas questões pessoais com as dos jogadores.

Voltando aos jogadores, o que mais vemos hoje é gente se esforçando para entrar no cenário, que infelizmente ainda é escasso. Temos poucos times no geral, principalmente se compararmos com esportes tradicionais. O problema é quando o aspirante a atleta acha que, quando chega num time, já fez tudo que precisava e que pode só jogar mais "de boa" e até não precisa seguir as recomendações ou as regras de um time. E mais: que ele se torna único, a rainha da cocada. Isso podemos ver principalmente por não encontrarmos praticamente reservas ativos nos times nos cenários ocidentais, enquanto no oriental é extremamente comum, já que lá eles não pensam tanto só em si, e pensam de fato no time que estão participando.

Não estou "puxando sardinha", como dizem, mas, é por causa de situações assim, que gosto tanto do projeto "Preparando Campeões", do qual faço parte, por ser um projeto onde estamos nos esforçando não só para trabalhar essas questões em nós mesmos, mas para auxiliar o surgimento de uma nova geração de jogadores, com um pensamento muito mais profissional e focado em sempre crescer com seu time.

Isso tudo que falei não está voltado a um time ou jogador, nada específico. É uma compilação de algo que tenho percebido neste tempo de e-sports. E não bem só como um desabafo, mas a ideia é principalmente por um apelo, pois não é o suficiente que os dirigentes, as pessoas que comandam os times pensarem assim e se esforçarem, se o próprio público, os futuros jogadores profissionais, os futuros técnicos, analistas e outros trabalhadores da área não começarem a pensar e agir mais nessa direção.

Finalizo com essa reflexão. Se queremos um reconhecimento profissional e um crescimento real do e-sport como geral, as ações não deveriam começar por nós mesmos? Em como lidamos e vivemos o e-sport, e com que ótica enxergamos o papel de cada um?

É isso, abraços a todos!

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* Rafael Pereira é graduando de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e criador de projeto de intervenções e pesquisa voltados para os esportes eletrônicos. É consultor em psicologia da equipe de League of Legends do CNB e-Sports Club. É colunista do MyCNB desde novembro de 2015. Escreve sobre psicologia nos dias 5 e 20 de todo mês.
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