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Coluna do Rafael Pereira #16: o poder dos estimulantes e energéticos

E quando a droga está na prateleira do supermercado? Na coluna passada, escrevi brevemente sobre drogas que são ilícitas, proibidas. Não quer dizer que elas necessariamente continuem assim, porém ainda não são legalizadas. Neste texto, escrevo sobre as drogas que são comercializadas legalmente, mas primeiro das que têm restrições.

No ano passado, houve um caso em um time de Counter-Strike do exterior, no qual os jogadores assumiram que estavam tomando Adderall. É uma droga com o mesmo intuito da Ritalina, mais conhecida no Brasil, cujo objetivo é aumentar a concentração, dar um "boost" no cérebro. Esse medicamento é receitado, em alguns casos, quando o paciente é diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção (TDA).

A verdade é que o próprio diagnóstico de TDA ainda é muito questionado, tanto por psicólogos quanto por psiquiatras e psicopedagogos. O assunto sobre esse transtorno é longo e talvez caiba discuti-lo em outro momento. Minha opinião é que muitos profissionais diagnosticam o TDA de forma equivocada e errônea, acusando crianças e adolescentes de terem um transtorno, quando, no fundo, a pessoa só é mais agitada e o responsável ou os professores não conseguem dar conta do recado.

Leia também: O poder de maconha e cocaína sobre os jogadores (clique aqui)

Voltando ao medicamento, a composição do Adderall e da Ritalina é a partir dos sais de anfetamina (aquele mesmo que gera a metanfetamina, que aparece no Breaking Bad ou faz parte do grupo que se encontra a cocaína). Ele libera mais dopamina nas sinapses (que é a atividade elétrica do cérebro, como passa informação de um neurônio para o outro). Ou seja, o remédio passa mais informações de uma vez, acelerando o cérebro. Por ter um efeito instantâneo no cérebro, acaba tendo alto poder de vício.

Ok, mas parece tão bom esse negócio, né? Você toma um comprimido e o cérebro parece que fica mais rápido. Bom, assim outras drogas, o medicamento provoca efeitos colaterais negativos para o nosso sistema. Você vai tomar um antibiótico sem estar doente? Não. Assim como não deve tomar um remédio como esse sem de fato precisar. Só para ter ideia de alguns dos efeitos colaterais que a medicação pode provocar além do vício: dor estomacal, labilidade emocional, boca seca, psicose, mau hálito, perda de interesse sexual, sintomas de depressão e ansiedade, cansaço, alterações na pressão e na pulsação, febre, alucinações, dor de cabeça, irritabilidade, náusea, entre outros. Como eu disse: para quem precisa, ok, vai ter uma receita com a dose correta e acompanhamento médico e psicológico, agora, para quem não precisa, vai fazer mal!

Para Adderall e Ritalina, você necessita de uma receita médica para adquirir legalmente. Porém, há outras substâncias que não precisam de receita e são drogas para quem quer um metabolismo saudável e eficaz: álcool, energéticos, refrigerantes e tudo que tem excesso de açúcar.

Esses itens também provocam tanto mal quanto os que falamos anteriores, alguns mais, outros menos, mas, quando estamos falando de alto rendimento, o mais alto desempenho dentro do nível esportivo, pequenas alterações no organismo geram grandes alterações nos resultados. Embora o álcool não possa ser comercializado para menores de 18 anos (eu sei que muitos menores bebem, mas estou falando aqui daqueles que estão pelo menos dentro da lei), ele muitas vezes é um vilão pior do que os que falamos antes, já que é de fácil acesso, é viciante, em excesso gera morte de neurônios, e mais, pode ser comprado em qualquer esquina de forma legalizada.

Energéticos, refrigerantes e doces com muito açúcar atuam como bombas no nosso cérebro. Elas também têm poder viciante. Podem não ser do mesmo tipo que as drogas ilícitas, mas viciam, sim. E estamos tão imersos neste mundo que nem percebemos o quanto essas substâncias alteram nosso humor, nossa energia e nosso auto-controle.

É extremamente comum ver latinha de energético na mão de um cyberatleta ou na mesa dele quando se faz uma filmagem. Para começar, é necessário entender que cada pessoa tem um nível de ativação ideal.

Eu já escrevi um pouco sobre ativação na coluna de ansiedade, porém, para retomar o assunto, é importante lembrar que quanto mais ativo nosso sistema está, maior a frequência cardíaca, mais agitada ou "ligada" a pessoa está. Para alguns, estar num nível de ativação muito alto é bom, pois, quanto mais enérgico, mais rápidas as reações, porém, para outros, estar num nível de ativação alto pode provocar ansiedade, falta de foco e descontrole das reações.

Por isso, dizemos que há um nível ideal para cada pessoa, o nível que faz aquela pessoa em específico trabalhar melhor. E onde entra o energético? Ele normalmente aumenta bastante a ativação do indivíduo. Você pode até pensar que isso deve ser bom para aquele cara que precisa de uma ativação alta, certo? Não é bem assim. Um dos trabalhos que os psicólogos do esporte faz é justamente ajudar o jogador a controlar sua ativação. Por meio de estímulos, de respiração, de treinar a mente a se focar.

Quando você coloca um agente externo como o energético, que tem uma grande potência, está também alterando muito o nível de dificuldade desse controle sobre a ativação. Embora, para alguns, é bom ter uma ativação alta, é importante que ele consiga baixá-la se assim quiser, ou precisar. Quando existem substâncias atuando no organismo, acelerando o batimento e aumentando o pico de energia, pode acabar falhando no controle e, por causa de pequenos momentos, perder um jogo importante. 

E porque isso é tão comum? Ora, quem não quer estar pilhado para o jogo? Ligamos muito aquela sensação de estar animado, agitado, com algo que vai fazer você jogar com tudo, com força, com determinação. Novamente aponto: isso não quer dizer que o cara perde um jogo por causa de um energético. Em alguns momentos, bem específicos, pode até ser útil. Mas usar de forma contínua, descontrolada, sem entender os reais resultados, vai ser ruim, pois não só atrapalha o controle, como atrapalha até o conhecimento que você tem sobre seu corpo, como você reage naturalmente às situações, como é sua ativação quando só depende de você, de seu corpo e sua mente limpos.

Isso não quer dizer que nunca poderemos ingerir nada dessas substâncias que compramos no mercado, mas quer dizer que temos de ter consciência de como elas reagem no nosso corpo, e como vamos lidar com isso. E saber que, se você busca ter um diferencial, superar seus limites e alcançar novos níveis de desempenho, todas as áreas da sua vida precisam ser avaliadas, e a alimentação é uma das mais importantes!

Hoje é isso, na próxima coluna, vou ajudar vocês a pensar em como usar o mercado e a cozinha a nosso favor, como alimentar corretamente o cérebro e buscar melhora a partir de substâncias saudáveis para o nosso corpo.

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* Rafael Pereira é graduando de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e criador de projeto de intervenções e pesquisa voltados para os esportes eletrônicos. É consultor em psicologia da equipe de League of Legends do CNB e-Sports Club. É colunista do MyCNB desde novembro de 2015. Escreve sobre psicologia nos dias 5 e 20 de todo mês.
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