Siga o MyCNB  

Intercâmbio com coreanos preocupa a longo prazo

O ousado e pioneiro projeto do Keyd Stars de trazer jogadores sul-coreanos para o Brasil deu início a um processo de internacionalização até então inédito no cenário brasileiro de League of Legends. Outras duas equipes também recorreram a cyber-atletas da Coreia do Sul, país referência na modalidade. Na opinião de especialistas ouvidos pelo myCNB, esse intercâmbio é bom a curto prazo, mas preocupa a longo prazo, quando os estrangeiros forem embora.

Enquanto as contratações do Keyd foram bem vistas, a comunidade mostrou-se mais reticente com a entrada de coreanos nopaiN Gaming e no Team 58ers, criticando o fato de os times “apelarem” para o cenário internacional e não valorizarem o brasileiro.

Para o narrador Diego “Lunacy” Oliveira, a valorização dos cyber-atletas coreanos pode fazer com que as organizações parem de olhar para novos talentos. Ele acredita, porém, que os efeitos positivos do intercâmbio são maiores do que os negativos. “Os coreanos trazem uma mentalidade nova, de dedicação e de se esforçar. É um jeito de o Brasil chegar um pouco mais perto do nível internacional”.

 

suno e winged bgl arena keyd starsO caster Gustavo “Melao” Ruzza salienta que revelações do cenário nacional podem ter dificuldades de entrar em grandes equipes. “Se eu fosse um jogador e estivesse almejando chegar no cenário competitivo, eu ficaria meio chateado, sim”. Mas garante que há espaço para o surgimento de novos talentos, lembrando do caso do Nex Impetus, que surpreendeu a todos no Campeonato Brasileiro de 2013 e hoje é a base da KaBuM.

Ele afirma que a presença de coreanos aumenta o nível dos brasileiros. “Os caras são muito bons e sabem trabalhar de uma maneira bem diferente, que traz mais resultados. A melhora da paiN foi surreal”. Com a chegada de Kim “olleh” Joo-sung (Support) e Han “Lactea” Gi-hyeon (Solo Top), o paiN saiu da lanterna da Liga Brasileira e chegou à Grande Final contra o Keyd.

Na opinião do ex-treinador Guilherme “Necro” da Silva, hoje consultor de e-sports, os estrangeiros podem criar um abismo ainda maior entre os cenários profissional e amador no Brasil. “Não temos um circuito amador coeso e constância nas lines amadoras. O gap [a diferença] entre a liga profissional e o anonimato é gigante, especialmente com mais coreanos vindo. Quem está em cima continua subindo e quem está abaixo não tem espaço pra melhorar”.

Por outro lado, os coreanos também forçam a melhora do nível do Solo queue, o que propicia o aparecimento de bons jogadores brasileiros. “Os novos talentos vão existir com ou sem coreanos. Não são quatro jogadores [agora seis] que vão deixar de criar novos jogadores no cenário. Eu digo até mais: os coreanos, alavancando o cenário, fazem os brasileiros falarem: ‘a gente pode chegar no nível dos coreanos’”, acredita o narrador Diego “Toboco” Pereira.

 

Planejamento

Os especialistas consultados são unânimes em dizer que problemas podem surgir a longo prazo. “Eu tenho receio de os times brasileiros, quando perderem os coreanos, não voltarem a ser grandes times”, teme Toboco.

Para que isso não aconteça, o locutor recomenda que as equipes aproveitem tudo que os jogadores estrangeiros têm para oferecer de experiência e gameplay. “Tem que extrair o máximo de informação, mecânica e dados. O que eles puderem falar, que falem. E aí treinar muitas horas”.

Necro vai além e acredita que as equipes que hoje não têm coreanos serão beneficiadas no futuro. “Quando esses coreanos saírem, os times que não tem coreanos e aprenderam com eles é que vão carregar as coisas por aqui. Mas eu não duvido que comecem a reciclar atletas coreanos de times grandes que caíram de lá, com a saída dos que tem aqui”.

No momento, os times só de brasileiros estão em um nível abaixo e correm para tirar o prejuízo. Prova disso é que Keyd e paiN, duas equipes com coreanos, disputaram a final da Liga. “Esses caras não são imbatíveis. Tem jeito de pará-los. CNB e KaBuM são times preparados para isso. Eu não sei os bastidores para entender porque isso não está acontecendo. Tem que aproveitar esse momento de ter gente tão boa e tão melhor que você e aprender”, diz Melao.

 

Intercâmbio

Em fevereiro, em uma reformulação quase completa da line-up, o Keyd (na época chamado de Keyd Team), surpreendeu a comunidade ao, além de trazer o famoso AD Carry Felipe “brTT” Gonçalves, contratar os sul-coreanos An “SuNo” Sun-ho (Mid Laner) e Park “Winged” Tae Jin (Jungler).

Desde então, a equipe tem sido soberana no cenário nacional e venceu todos os campeonatos que disputou: BGL Arena #3,Selecter CupX5 Mega Arena e Liga Brasileira.

O paiN, em meio a uma crise, correndo o risco de ficar de fora da fase final da Liga, tirou Fabio “Venon” Guimarães (Solo Top) e Gustavo “Minerva” Queiroz (Support) para dar lugar a coreanos.

Em junho, o recém-criado Team 58ers (representante do Empire e-Sports) também buscou jogadores no cenário sul-coreano para formar a line-up com três cyber-atletas brasileiros e trouxe Lee “Flash” Min Ho (Mid Laner) e Won “ReSEt” Jun-ho (Jungler).sharkbari e lactea pain gamingFuturo

O dono do Keyd, Eduardo Kim, já disse que os dois coreanos de seu time podem continuar no Brasil em 2015, dependendo do desempenho da equipe nos torneios de classificação para o Campeonato Mundial.

“Já perguntei para o SuNo e o Winged. Eles falaram que têm a intenção de continuar no Brasil, se conseguirmos uma boa colocação ou até a vaga no Mundial”, revelou Kim, durante entrevista coletiva, em Fortaleza, no mês passado, após conquista do título da Liga. “O Winged me perguntou se, quisesse vir morar no Brasil, se eu o ajudaria. Eu respondi que sim, que ajudaria em tudo que desse”.

Limite

De acordo com as regras da Riot Games Brasil, os times brasileiros podem ter no máximo dois estrangeiros na line-up. O objetivo, segundo o gerente de e-sports da empresa, Philipe “PH Suman” Monteiro, é “evitar que venha um time inteiro de um cenário mais desenvolvido e domine tudo. Aí não adianta nada. Nossos jogadores vão aprender muito menos do que aprendem com uma quantidade menor de jogadores”, disse, em uma transmissão por stream para responder a dúvidas da comunidade sobre o cenário competitivo.

“Eles [os estrangeiros] trazem experiência para a própria equipe e fazem com que os adversários fiquem mais estimulados a treinar, a desenvolver novas táticas e técnicas e se dediquem de uma forma diferente, o que acaba engrandecendo o cenário como um todo”, complementou.